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Chega de gerundismo!!!

"O senhor pode estar aguardando que vamos estar encaminhando seu pedido." Ficou irritado? Não agüenta mais ouvir GERUNDISMOS? Então junte-se a nós na cruzada contra essa praga que assola nossa querida língua portuguesa!!!


Gostaríamos de agradecer a todos os que aqui vêm, lêem, expressam suas opiniões e deixam um comentário, mesmo que não atualizemos o blog como deveríamos (é, ele anda meio abandonado).

 

Ficamos felizes de saber que existem outras tantas pessoas que se revoltam contra o gerundismo. Também estamos contentes de ver que outras campanhas têm sido difundidas por aí, como os toques nem tão sutis da novela das 8, Belíssima (intelectualóides, controlem a ira, por favor), que vez ou outra apresenta uma personagem falando que o uso do gerundismo não é adequado a uma linguagem que pretende ser erudita.

 

Também assistimos ao movimento contrário das empresas de telemarketing: se há algum tempo elas eram as principais propagadoras deste modo de falar, agora a tendência é, nos cursos de reciclagem, fazer com que os funcionários evitem ao máximo o gerundismo. Aliás, li há algum tempo (desculpem, mas não lembro onde) que, se um funcionário quer ser promovido dentro de uma dessas empresas, deve evitar cair na tentação de usar o gerundismo, com o risco de não ser aceito no cargo.

 

Claro que a novela das 8 não é dos veículos mais inteligentes do planeta, mas ninguém pode negar que, aqui no Brasil, é formadora de opinião. O que se passa nas empresas de telemarketing pode não ser a mais digna das medidas, mas é uma ação de combate.

 

Cada um faz seu papel, nós tentamos fazer o nosso.

 

E, pra terminar, deixo aqui uma breve pista de nosso currículo para o Leandro que, indignado com nosso “julgamento de valores”, quer saber qual é a nossa “formação lingüística”. Digamos que ela teve início quando, ainda bebês, conseguimos compreender palavras da língua portuguesa. Alguns meses depois, conseguimos nos expressar em português. Fomos para a escola, fizemos composições sobre nossas férias, redações e mais redações, provas e, finalmente, prestamos vestibular, fizemos Letras na USP. Com tal “formação lingüística”, conseguimos um emprego como redatoras e revisoras e, por isso mesmo, somos diariamente obrigadas a ler e a ouvir toda sorte de absurdo que existe neste mundão de Deus, incluindo aí o GERUNDISMO.



 Escrito por Letristas desesperadas às 15h26
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Luana, especialmente para você, querida!

FERREIRA GULLAR

Alguém fala errado?

Sei muito bem que, de acordo com a lingüística moderna, não existem o certo e o errado no uso do idioma nacional, ou melhor, não existe o errado, o que significa que tudo está certo e que minha antiga professora de português, que me ensinou a fazer análise lógica e gramatical das proposições em língua portuguesa, era uma louca, uma vez que a língua não tem lógica como ela supunha e a gramática é de fato um instrumento de repressão; perdeu seu tempo dona Rosinha ensinando-me que o verbo concorda com o sujeito, e os adjetivos com os substantivos, como também concordam com estes os artigos, ou seja, que não se deve dizer dois dúzias de ovos, uma vez que dúzia é palavra feminina, donde ter que dizer "duas dúzias de ovos", o que era, como sei agora, um ensinamento errôneo ou, no máximo, correto apenas naquela época, pois hoje ouço na televisão e leio nos jornais "as 6 milhões de pessoas", construção indiscutivelmente correta hoje, quando os artigos não têm mais que concordar com os substantivos e tampouco com o verbo, como me ensinara ela, pois me corrigia quando eu dizia "ele foi um dos que fez barulho", afirmando que eu deveria dizer "um dos que fizeram barulho", e me explicava que era como se dissesse "foi um dos três que fizeram barulho", explicação antiquada, do mesmo modo que aquela outra referente à regência dos verbos e que eu, burróide, entendi como certo quando, na verdade, o certo não é, por exemplo, dizer "a comida de que ela necessita" ou "o problema de que falou o presidente", e, sim, "o problema que falou o presidente", frase que, no meu antiquado entendimento, resulta estranha, pois parece dizer não que o presidente falou do problema, mas que o problema falou do presidente, donde se conclui que sou realmente um sujeito maluco, que já está até ouvindo "vozes" e, além de maluco, fora de moda, porque não se conforma com o fato de terem praticamente eliminado de nossa língua as palavras "este" e "esta", que foram substituídas por "esse" e "essa", pois sem nenhuma dúvida é uma tolice querer que o locutor da televisão, referindo-se à noite em que fala, diga "no programa desta noite" em lugar de "no programa dessa noite", que, dentro do critério de que o errado é certo, está certíssimo, ao contrário do que exige esta minha birra, culpa da professora Rosinha, por ter insistido em nos convencer de que "este" designa algo que está perto de mim, "esse", algo que está perto de você e "aquele", o que está longe dos dois, e ainda a minha teimosia em achar que essas palavras correspondem a situações reais da vida, não são meras invenções de gramáticos; e, de tão sectário que sou nesta mania de preservar a língua, não suporto ouvir a expressão "isto não significa dizer" em vez de "isto não quer dizer", que é o correto, ou era, além de expressão legítima, enquanto a outra é um anglicismo, mas que, por isso mesmo, há quem considere ainda mais correta, porque estamos na época da globalização, o que torna mais bobo ainda implicar com estrangeirismos, como aquele meu amigo que fica irritado ao ler nos jornais que "a reunião da Câmara foi postergada para segunda-feira", em vez de "adiada", como sempre se disse e que facilita o entendimento da maioria das pessoas, já que nem todos os brasileiros amargaram o exílio em países de língua espanhola. Mas já quase admito ser muita pretensão teimar em dizer "o governador cogita de enviar à Câmara um novo projeto de lei", pois isso de que o verbo "cogitar" rege a preposição "de" também é bobagem, coisa de gente pretensiosa que precisa se impor às outras falando arrogantemente "correto", como se houvesse modo de falar certo ou errado, de falar correto, pois a verdade é que tal pretensão oculta um preconceito de classe, uma discriminação contra aqueles que não tiveram oportunidade de estudar e, por essa razão, não podem falar como os que usufruíram do privilégio burguês, ou pequeno-burguês, de estudar gramática, o que vem acentuar a injustiça social. Como se não bastasse serem aqueles pobres discriminados no trabalho e no conforto, ainda se acrescenta essa discriminação, acusando-os de falarem mal a língua, da qual são eles de fato os criadores e que foi apropriada pelos ricos e poderosos que agora se consideram donos dela, como de tudo o mais que existe neste mundo, pois eles de fato não toleram a hipótese de que todas as pessoas sejam iguais e que todas elas falem corretamente ainda que gramáticos elitistas insistam em dizer que falam errado só porque não falam segundo as normas da classe dominante, que, além de impedir os pobres de estudar, acusam-nos de serem ignorantes, atitude de fato inaceitável, pois sabemos que todas as pessoas são igualmente inteligentes e talentosas, portanto capazes de criar obras de arte geniais, de conceber teorias iguais às que conceberam Galileu e Einstein, e só não o fazem porque são deliberadamente impedidas de dar vazão a seu gênio criador; e também neste caso se comete a injustiça de consagrar como gênios alguns homens privilegiados e não atribuir qualquer valor aos milhões, perdão, às milhões de pessoas tidas como comuns, e só não consigo entender é por que os lingüistas que defendem tais idéias continuam a escrever corretamente tal como exigia minha professora do colégio São Luís de Gonzaga, naqueles distantes anos da década de 1940... Diante disto, não está mais aqui quem falou.

Folha de S. Paulo, 25/9/2005.



 Escrito por Letristas desesperadas às 08h53
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Oi, pessoas!

Eis que estou tranqüilamente lendo a revista Língua Portuguesa (ótima, por sinal), quando me deparo com a seguinte frase: "Desde o ano passado, faz sucesso o blog www.chegadegerundismo.zip.net, e a comunidade Eu Odeio Gerundismo, formada há um ano no Orkut, já recebeu a visita entusiasmada de mais de 12 mil integrantes".  Como assim??? Pisquei bem, reli, "treli". Somos nós!!!!!!!!

Ficamos imensamente gratas com a referência e aproveitamos para  reiterar nosso compromisso com o combate ao gerundismo. Se a nossa bela língua possui estruturas tão simples e claras, por que empolá-la com fórmulas extensas, cansativas e vazias? Optemos pela sábia teoria de que "menos é mais". Sejamos diretos. Chega de gerundismo!

Respeitamos os direitos da revista e optamos por não reproduzir o artigo na íntegra aqui, mas deixamos o link para os interessados: http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=10887. Leiam, leiam, leiam! Vale a pena!!!

E pra terminar, Luiz Costa Pereira Jr., nós amamos você!



 Escrito por Letristas desesperadas às 09h15
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O gerúndio virou moda

O uso excessivo de expressões que indicam continuidade divide opiniões de especialistas, que divergem sobre sua correção

Por Diego Amorim

Cada vez mais comum, especialmente  entre recepcionistas, secretários e atendentes de telemarketing, o uso do gerúndio tornou-se polêmica nacional. Expressões como “vou estar encaminhando seu pedido” e “vou estar transferindo sua ligação” são muito usadas e especialistas não entram em acordo sobre sua correção ou não. A forma verbal, no entanto, existe e é legítima. O tema foi discutido no seminário E os Falantes Descobriram que o Português é uma Língua de Gerúndios, realizado na tarde de sexta-feira, 17 de junho, pelo Departamento de Lingüística, Línguas Clássicas e Vernácula (LIV) do Instituto de Letras (IL) da Universidade de Brasília (UnB).

 

A doutora em Lingüística pela Universidade de Paris VII e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Odete da Silva Menon, decidiu dedicar-se ao estudo do gerúndio depois que começou a receber, pela Internet, textos com duras críticas ao uso da forma verbal. Um dos argumentos que logo provocou estranhamento na professora foi o de que o gerúndio não existe no português de Portugal. “Basta abrir, atualmente, qualquer obra editada no país para conferir o uso do gerúndio. O gerúndio é uma construção portuguesa que não pode ser desconsiderada”, afirma.

 

CONTRA O ABUSO

Na Internet, são vários os sites e blogs que condenam o “gerundismo”, expressão surgida para definir a mania de usar o gerúndio. No orkut (portal de relacionamento da rede), diversas comunidades também levantam a bandeira contra o uso excessivo da forma verbal. Mas, para Odete, o gerúndio em si não tem nada a ver com essa discussão. “O que dá a sensação do uso abusivo do gerúndio é o fato de estarmos utilizando mais o tempo futuro”, defende. “É a freqüência do uso que causa estranhamento”, aposta a pesquisadora.

 

A jornalista e escritora Dad Squarisi, por sua vez, acredita que o gerúndio esteja substituindo o futuro. E, segundo ela, existem apenas duas formas de futuro: o futuro simples (por exemplo: “mandarei”) e o composto (“vou mandar”). A forma “vou estar mandando” é equivocada. “A construção virou moda, mas o gerúndio não indica futuro”, diz. Para Dad, a propagação dessas construções se deve a uma tradução malfeita da estrutura do inglês "will be + gerúndio". Mas, para a professora Odete, não é o gerúndio que representa o futuro, mas a construção "vou estar".

 

ORIGEM

Já Odete não crê que as construções sejam fruto de um decalque do inglês. De acordo com ela, para que a língua inglesa provocasse esse tipo de interferência na língua portuguesa seria necessário que o falante tivesse conhecimento dos dois idiomas. “No nível vocabular, a influência do inglês é comum, mas quando se trata de estruturas sintáticas e morfológicas não é algo tão simples assim. Pode ser apenas uma coincidência”, ressalta.

 

Independentemente da origem dessas construções, a professora do LIV Enilde Faulstich defende que não há necessidade de utilizá-las, pois são longas e imprecisas. “Quanto mais se coloca um verbo ao lado do outro, mais confusa fica a mensagem”, diz. Para ela, essas expressões se transformaram em uma espécie de código específico da área de recursos humanos das empresas. “O gerúndio dá noção de que a coisa vai ser feita em um futuro próximo, mas, na verdade, quando escutamos essas construções não sabemos quando a ação será realizada nem mesmo quem será o sujeito dela”, explica.

 

O professor do LIV Marcos Bagno diz que as críticas ao gerúndio são infundadas e que, na maioria das vezes, elas estão relacionadas ao gosto pessoal de quem critica. “As pessoas acusam com explicações tiradas do próprio bolso, sem nenhuma pesquisa prévia ou base teórica”, afirma. O estudante do 6º semestre de Letras Carlos Felipe Wanderley, 23 anos, concorda e considera que, pelo menos na língua falada, o gerúndio não deve ser considerado uma ferramenta condenável.

 

Fonte: Agência UnB

 

 

Comentário desta que bloga:

Fala sério, né, Marcos Bagno!!! Sabe o que vou fazer com aquele seu livro que tenho em casa? Queimá-lo amanhã, em praça pública, mais precisamente na Praça da República, às 12h. Quem quiser ver o espetáculo, que compareça.

 

Ah! Vê se posso com tais idéias... tsc, tsc.



 Escrito por Letristas desesperadas às 14h45
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Olá, leitores!

Primeiramente, gostaria de me desculpar pelo temporário abandono do blog. Não que nossa ira contra o gerundismo tenha acabado, é só uma questão de falta de tempo mesmo. Apesar disso, vi pelos comentários que vários outros indignados passaram por aqui e manifestaram suas vontades e seus desabafos.

Ronaldo, realmente, o "a gente" já tomou conta da língua e nem se questiona mais sobre isso. Conheço mais pessoas que, como você, odeiam a moda que, a meu ver, nem é mais moda. Já está consagrada e cristalizada. É ótimo, de qualquer maneira, mantermos uma postura crítica de quem, além de simplesmente condenar, faz uma reflexão sobre a própria língua.

Quando idealizamos este blog, é claro que não descartamos desabafos irados. Blogs são em sua maioria informais, o que é excelente, pois assim podemos colocar os bichos pra fora MESMO. Mas isso não significa que excluímos a possibilidade de discussão. Ao contrário, queremos sempre discutir. No entanto, como já aconteceu  anteriormente quando fomos questionadas sobre o ataque ao gerundismo, mantemos nossa posição. Temos nossa opinião, sim, e acho que está bem claro que somos contra esse modismo do gerundismo.

Por isso, Antônio Marra, agrademos sua adesão à luta. Como no caso do modismo do "a nível de" que, de tanto ser criticado e condenado, acabou por ser praticamente erradicado do cotidiano da nossa língua, acredito que o mesmo possa acontecer com o gerundismo. O melhor, então, é esclarecer as pessoas e explicar por que falar "vou estar encaminhando" soa, no mínimo, estranho.

Sobre isso, Carolina, nós já tratamos em posts anteriores. Há casos em que "vou estar jantando" não está errado. Por exemplo, se uma pessoa fala que vai telefonar para você amanhã, às 7 da noite, você pode perfeitamente responder a ela que não ligue, pois, nessa hora, você vai estar jantando. Como percebemos, esse é um exemplo isolado, muito diferente da proliferação do uso da forma.

E, pra terminar, gostaria de enfatizar que a luta continua! Não desistamos! Adoradores da língua portuguesa, uni-vos!

Abraços a todos!



 Escrito por Letristas desesperadas às 10h24
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Outra voz que se levantou contra o gerundismo. Com a palavra, Carlos Nader, da Revista Trip. 

ESTOU ESTANDO

Por Carlos Nader

 

Nesta edição eu vou estar tentando escrever uma coluna de classe. Eu vou estar tentando me superar. Porque eu sei que colunista é que nem padeiro: tem que estar servindo bem para estar servindo sempre.

 

Antes, deixa eu fazer uma pergunta. Por que é que de uns tempos pra cá todo mundo está falando nesta espécie de gerúndio do futuro? Pelo menos em São Paulo, não há quem não ouça diariamente uma atendente mandando um "eu vou estar te ligando amanhã" ou um executivo aplicando um "nós vamos estar nos reunindo na sala quatro". É uma avalanche de frases proclamadas com uma pompa tipo fina, apesar de serem conjugadas num tempo que não existe em nenhum livro da gramática portuguesa.

 

Não é que eu tenha encarnado um professor Pasquale não. De jeito nenhum. Adoro a língua falando bem, adoro a língua bem falada. Mas acredito piamente no óbvio: a contribuição milionária de todos os erros do povo garantindo sempre (e aqui sim vale o presente contínuo), garantindo sempre o fluxo vital de uma língua. É justamente por isso que não gosto deste neogerúndio emergente. Ele nem é um erro, pelo contrário, é uma tentativa de acerto. É uma formulação pra inglês ver e aprovar. E já que é para tentar ser fino, digo então que esta gerundização tardia do porvir é o aportuguesamento chinfrim, genuflexo, de um inglês corporativo, talvez não menos chinfrim, mas pelo menos existente na gramática bretã. "Yes sir, I will be sending your order tomorrow morning."

 

Todos os caminhos levam a Miami

Por que é que de uma hora para outra começamos a macaquear mais esse americanismo, sem nem ao menos saber a razão de o estarmos fazendo? Sei lá, mas a minha intuição quer achar que todas as pistas, assim como todas as estradas, sobretudo as da informação, ainda levam à sede do Império. Algo me diz que o cavalo de Tróia dessa invasão foi um veículo de mídia pouco notado, mas muito atuante: o call-center de grandes empresas.

 

Se não, vejamos. O desembarque gerúndico começou justamente há uns quatro anos, num período que coincide com o apogeu do neoliberalismo globalizado. Era a época da bolha da internet, da exuberância irracional dos mercados, da fartura de investimentos e das privatizações no país. Assim, não custa muito esforço imaginar que o mito fundador do new gerúndio em terras bandeirantes tem início no momento em que um gerente pós-doutorado em call-centers pela matriz americana ordena ao subalterno: "Seja mais educado com o cliente, diga que estará tomando providências e que fará tudo para estar enviando o pedido até amanhã".

 

Minha língua, minha mídia

Também não estou recebendo de frente nenhum Aldo Rebello, aquele deputado que criou um projeto de lei que em última instância defende a substituição da palavra "futebol" por "ludopédio". Ou de "mouse" por "rato". Eu mesmo, aqui na TRIP, adoro misturar expressões pedestres com raciocínios verbais metidos a besta. Língua é para entrar em contato. O próprio inglês não tem nada de puritano. É possivelmente o idioma mais promíscuo do Ocidente. O português também só tem a ganhar com a maioria das contaminações. A maior catedral da linguagem brasileira, Grande Sertão: Veredas, foi construída por Guimarães Rosa baseada num projeto que fundiu magistralmente a fala do povo com estruturas gramaticais estrangeiras.

 

Miscigenação é sinônimo de liberdade. Tem que ser. O que incomoda neste novo dispositivo tecnológico importado para otimizar a fala corporativa tupinambá é o aparato ideológico que se esconde atrás dele. O vírus lingüístico aproveita certa jequice capi-nanceira para se instalar entre nós. Ele se hospeda num velho desejo reverente, meio barato, de eficiência e sofisticação primeiro-mundista. Desejo que, diga-se, para que não fujamos tanto do tema habitual desta coluna, nem é novo nem se restringe apenas ao ambiente de negócios. É provavelmente o mesmo raciocínio que leva os grandes veículos de comunicação nacionais a cada vez mais pautarem suas matérias internacionais seguindo a cartilha da imprensa do "eixo do bem", Estados Unidos e Inglaterra.

 

Mas isso é assunto para uma outra hora. Enquanto o William Bonner ainda não abre o Jornal Nacional dizendo que o exército americano vai estar invadindo o Iraque, vale lembrar que a língua, além de ser a nossa pátria, nossa casa, nosso corpo, nossa alma, é também a nossa maior mídia.

 

*Carlos Nader está sendo um homem de mídia há 37 anos e está gostando. Ele vai estar respondendo cartas no e-mail: carlos_nader@hotmail.com

Fonte: Revista Trip, 05/11/2002



 Escrito por Letristas desesperadas às 09h03
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HEI, HEI, HEI, Ricardo Freire é nosso rei!!!

HEI, HEI, HEI, Ricardo Freire é nosso rei!!!

HEI, HEI, HEI, Ricardo Freire é nosso rei!!!

Para você estar passando adiante 
 

Este artigo foi feito especialmente para que você possa estar recortando e possa estar deixando discretamente sobre a mesa de alguém que não consiga estar falando sem estar espalhando essa praga terrível da comunicação moderna, o gerundismo. 
Você pode também estar passando por fax, estar mandando pelo correio ou estar enviando pela Internet. O importante é estar garantindo que a pessoa em questão vá estar recebendo esta mensagem, de modo que ela possa estar lendo e, quem sabe, consiga até mesmo estar se dando conta da maneira como tudo o que ela costuma estar falando deve estar soando nos ouvidos de quem precisa estar escutando. 
Sinta-se livre para estar fazendo tantas cópias quantas você vá estar achando necessárias, de modo a estar atingindo o maior número de pessoas infectadas por esta epidemia de transmissão oral. 
Mais do que estar repreendendo ou estar caçoando, o objetivo deste movimento é estar fazendo com que esteja caindo a ficha nas pessoas que costumam estar falando desse jeito sem estar percebendo. 
Nós temos que estar nos unindo para estar mostrando a nossos interlocutores que, sim!, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito. 
Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo obrigados a estar emigrando para algum lugar onde não vão estar nos obrigando a estar ouvindo frases assim o dia inteirinho. 
Sinceramente: nossa paciência está estando a ponto de estar estourando. O próximo "Eu vou estar transferindo a sua ligação" que eu vá estar ouvindo pode estar provocando alguma reação violenta da minha parte. Eu não vou estar me responsabilizando pelos meus atos. 
As pessoas precisam estar entendendo a maneira como esse vício maldito conseguiu estar entrando na linguagem do dia-a-dia. 
Tudo começou a estar acontecendo quando alguém precisou estar traduzindo manuais de atendimento por telemarketing. Daí a estar pensando que "We'll be sending it tomorrow" possa estar tendo o mesmo significado que "Nós vamos estar mandando isso amanhã" acabou por estar sendo só um passo. 
Pouco a pouco a coisa deixou de estar acontecendo apenas no âmbito dos atendentes de telemarketing para estar ganhando os escritórios. Todo mundo passou a estar marcando reuniões, a estar considerando pedidos e a estar retornando ligações. 
A gravidade da situação só começou a estar se evidenciando quando o diálogo mais coloquial demonstrou estar sendo invadido inapelavelmente pelo gerundismo. 
A primeira pessoa que inventou de estar falando "Eu vou tá pensando no seu caso" sem querer acabou por estar escancarando uma porta para essa infelicidade lingüística estar se instalando nas ruas e estar entrando em nossas vidas. 
Você certamente já deve ter estado estando a estar ouvindo coisas como "O que cê vai tá fazendo domingo?", ou "Quando que cê vai tá viajando pra praia?", ou "Me espera, que eu vou tá te ligando assim que eu chegar em casa". 
Deus. O que a gente pode tá fazendo pra que as pessoas tejam entendendo o que esse negócio pode tá provocando no cérebro das novas gerações? 
A única solução vai estar sendo submeter o gerundismo à mesma campanha de desmoralização à qual precisaram estar sendo expostos seus coleguinhas contagiosos, como o "a nível de", o "enquanto", o "pra se ter uma idéia" e outros menos votados. 
          A nível de linguagem, enquanto pessoa, o que você acha de tá insistindo em tá falando desse jeito?

(Saiu no Jornal da Tarde, em 16 de fevereiro de 2001) 



 Escrito por Letristas desesperadas às 09h24
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Oi, pessoas!

 

Samuel resolveu jogar uma luz sobre a história do inglês. Achamos deveras pertinente e aí vai ela, entremeada por comentários nossos.

 

Olá, letristas.

Talvez as ajudando a respeito do inglês, e complementando o texto do Pasquale, quero tentar entender também de onde veio o "vamos estar enviando".

 

No inglês, isso se chama Future Continuous. Geralmente se usa quando existem duas ações no futuro que se interceptam. Por exemplo: "Estarei comendo quando você chegar" ou "Vou estar comendo quando você chegar". Vemos que uma ação estará se desenvolvendo quando outra acontecer. Acredito que uma frase construída nesse contexto não é tão macabra.

 

Comentários nossos: Sim, Samuel, neste caso, há tanto a idéia de simultaneidade de ações quanto a de continuidade de uma delas. Terrível seria se fosse “Vou estar comendo quando você vai estar chegando.” SOCORRO. É brincadeirinha.

 

No livro de inglês em que eu pesquisei isso, vi um exemplo que até poderia (forçando a barra) justificar esse uso pseudo-chique-telefônico. "I'll be seeing him tomorrow at 7.00 am". (Estarei - ou "vou estar" - vendo-o às 7). Em minha opinião, podemos perceber que é melhor usar esta construção quando a ênfase for dada ao horário e não à ação. Ou seja, a frase quer dizer que justamente às 7 a pessoa estará num encontro com alguém.

 

Comentários nossos: pessoalmente não acho que o gerúndio se aplique nesse caso. Em português, gerúndio pressupõe ação contínua no tempo, não? É “Amanhã eu o verei às 7h”.

 

Quando ouvimos um "vou estar enviando", não percebemos nenhuma outra ação em que este "estar enviando" esteja incluído. Ou seja, essa construção longamente enfatiza uma ação que poderia ser expressa por "enviarei".

 

Comentários nossos: poderia, não, deveria.

 

De qualquer forma, apoio o que vocês disseram: devemos prestar atenção à "Lei da economia lingüística"; e também à "Lei da objetividade e clareza", evitando futilidades lingüísticas.



 Escrito por Letristas desesperadas às 13h51
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Esse blog, além de ser um canal para publicarmos nossas idéias, é também um espaço para congregarmos todos aqueles que se manifestam contra o gerundismo.

 

Falo isso porque ontem fiz uma pesquisa na Internet pra ver o que achava sobre o tema e encontrei um post muito engraçado, de um blog chamado Águas Claras. Tomo a liberdade de reproduzi-lo aqui, como exemplo a ser seguido.

 

Gerundismo

Esse “vício de linguagem” ao meu ver foi uma das piores coisas que surgiram nos últimos tempos, e se alastra como uma verdadeira praga, quase que na mesma velocidade com que se alastrou o “a nível de".

 

Numa lista de discussão da qual participo está acontecendo uma campanha informal que prega “um 2004 sem gerundismo", pois mais pessoas se incomodam com esta prática. Por conta disso, Sérgio Milani, um dos colaboradores da lista contou um caso interessante mostrando como pode ser o combate ao gerundismo :

 

Sobre a matéria “Em 2004, gerundismo zero!” gostaria de dizer que concordo 100%. E, como contribuição, deixo aqui a forma engraçada como um amigo meu lidou com um gerundista. Tomara que ele tenha aprendido. Em uma conversa telefônica, o atendente da operadora de telefonia fixa disse:"então, senhor, eu vou ESTAR AGENDANDO um horário para um técnico ESTAR VISITANDO o senhor para que ele possa ESTAR INSTALANDO o telefone". E o meu amigo respondeu: “e se na hora em que ele vier eu não ESTIVER ESTANDO em casa?…”



 Escrito por Letristas desesperadas às 09h03
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Este é para lavar a alma dos que ODEIAM gerundismo. Com a palavra, tio Pasquale:

 

"O SENHOR PODE ESTAR ENVIANDO UM FAX?"

Já tratei nesta revista da presença estrangeira em nossa língua. Critiquei - e nunca deixarei de criticar - o uso tolo de palavras e expressões estrangeiras. E o que é o uso tolo? O short que o treinador do Corinthians e da seleção brasileira, Wanderley Luxemburgo, usou durante uma das partidas das finais do último Campeonato Paulista é ótimo exemplo: "Num campeonato short como este...". Que diabos é um campeonato short? Aposto que 99% das pessoas que o ouviram não sabem que isso significa "curto".

O intragável delay que um apresentador da TV Bandeirantes costuma empregar é outro exemplo de uso tolo: "Tivemos um pequeno delay na transmissão." Delay? Que tal "atraso"?

Há também o caso das saboneteiras em que se lê push. É batata! As pessoas vão e puxam a pequena alavanca e nada de sabão. Push, palavra inglesa, não significa "puxar". Push é "empurrar", "pressionar".

Francamente, não me parece necessário dar em inglês a instrução para o uso de uma saboneteira. Alguém pode justificar esse procedimento com o fato de a saboneteira ser importada. E daí? É obrigatório - por lei - traduzir esse tipo de informação.

Pois bem. Às vezes, a influência é mais sutil. Virou moda usar expressões como "O senhor pode estar mandando um fax?" ou "Nós vamos estar providenciando", ou ainda "Não pude estar comparecendo". O que é isso, meu Deus? Que história é essa de "vamos estar providenciando"?

Suponho - posso estar enganado - que isso seja influência inglesa. Talvez a tradução meio literal de frases como "I will be sending", ou "We will be asking", que, ao pé da letra, equivalem a "Estarei enviando" e "Estaremos pedindo (perguntando)", respectivamente.

Como no Brasil não são comuns formas como "estarei", "estaremos" - em seu lugar usam-se as formas "vou estar", "vamos estar" -, na mão de alguns tradutores "We will be sending" acaba virando "Nós vamos estar enviando".

Pronto! Bastou alguém com ares de erudição traduzir ao pé da letra uma expressão legítima e comum em inglês para que a praga pegasse em português.

O pior é que esse tipo de frase passa uma incrível impressão de coisa chique, refinada. É preciso falar assim para estar na moda.

Uma amiga telefonou para uma administradora de cartões de crédito e ouviu da atendente esse tipo de frase umas duzentas mil vezes ("Vamos estar providenciando", "Vamos estar verificando", "A senhora vai estar recebendo", "O computador vai estar emitindo", "O banco vai estar cobrando", etc., etc., etc.).

No fim, enjoada - enjoadíssima, com o estômago embrulhado, em estado de pré-congestão -, minha amiga ouviu a seguinte pergunta: "A senhora pode estar enviando uma cópia do extrato?" Irônica, respondeu: "Estar enviando eu não posso, mas enviar eu posso". A moça não entendeu a ironia. "Como?", perguntou, atônita. O problema é que casos como esse alimentam a velha idéia de que em língua formal basta dizer algumas palavras e expressões "difíceis" para que o discurso seja bom. Para variar, não se pensa no verdadeiro xis da questão, que é a ordenação das idéias, o pensamento lógico, a estrutura clara, a correção gramatical, a linguagem adequada.

Voltando ao "vamos estar enviando", se você trabalha com o público, preste atenção. Veja se também não se rendeu à tentação. Se o fez, pare para pensar. Em vez de "O senhor pode estar enviando um fax?", "Vamos estar providenciando", "Vou estar solicitando", que tal a velha e boa estrutura típica do português do Brasil: "O senhor pode enviar um fax?", "Vamos providenciar", "Vou solicitar"?

Por que eu disse "português do Brasil"? Já afirmei que no Brasil não é comum o futuro do presente. Não temos o hábito de dizer "faremos". Dizemos mesmo "vamos fazer". Na verdade uma frase como "Vamos estar enviando" poderia ser resumida em "Enviaremos". "Vamos enviar" é a construção mais comum entre nós. "Vamos estar enviando" é dose! É o rococó do rococó.

Pasquale Cipro Neto
outubro/98 - Revista CULT



 Escrito por Letristas desesperadas às 14h47
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A internauta Lilian deixou um comentário no texto do dia 08 de julho, indignada com nossa postura de, segundo ela, limitar a discussão sobre o gerundismo ao maniqueísta certo X errado.

 

Achamos que era um comentário pertinente e resolvemos responder criando um novo post.

 

Cara Lilian,

 

Antes de tudo, saiba que gostamos muito de receber seu comentário. Nossa idéia não é só jogar o gerundismo na fogueira, mas discuti-lo. E não há discussão proveitosa sem opiniões divergentes, não acha?

 

A questão é que não concordamos com você a respeito de que isso seja exclusão de quem fala errado. Primeiro, porque é uma hipocrisia achar que alguém que não domine a norma culta não será discriminado no mundo real. Nós já estudamos, discutimos, pensamos e repensamos o que teóricos como Marcos Bagno definem hoje como preconceito lingüístico.

 

Concordamos com ele e com suas teorias. No entanto, é muito comum hoje em dia algumas pessoas distorcerem a discussão sobre o certo e o errado, satanizando esses conceitos até as últimas conseqüências e pregando que nada mais pode ser corrigido, nada mais pode ser considerado errado.

 

Ora, ora, ora. Não sejamos hipócritas, Lilian. Todos nós somos dependentes da norma culta. Ou você acha que um indivíduo que chega a uma entrevista de emprego falando “nóis fumo mais vortemo” vai ter a mesma oportunidade que aquele que conhece e domina a norma culta???

 

Defendemos que as pessoas possam falar do jeito que quiserem, mas queremos que todos tenham acesso à norma culta. O domínio desta última é uma questão de inclusão e não de exclusão!!!

 

Segundo, porque gerundismo não é originalmente um falar popular, ele não nasceu do falar do povo na rua. Pelo contrário, o gerundismo é abundante no falar de muitas pessoas que aparecem na mídia, que trabalham com formação de pessoal em grandes empresas, que dão treinamentos, cursos e palestras, que ensinam nas faculdades e nas escolas país afora; ou seja, o gerundismo é usado por aqueles que formam e informam. Por isso, ironicamente, ele se tornou um exemplo do bem falar.

 

Assistindo ao noticiário diário é fácil encontrá-lo no falar de pessoas “importantes”, como advogados e políticos. Nesse caso, há a intenção de falar bonito, ainda que esse falar bonito seja equivocado. Não se pode dizer que esse grupo de pessoas não tenha instrução, ou que não tenha tido acesso à educação. Logo, se na televisão o fulano fala usando gerundismos, quem ouve passa a achar que aquilo é falar bonito e adota aquela fala sem questioná-la, até porque a maioria das pessoas que simplesmente reproduz esse modo de falar não se sente capaz de questionar o que o Dr. Advogado ou o Dr. Político falaram. Sabe por quê? Porque eles nem sequer sabem o que é um gerúndio. Não acredita? Então faça esta experiência: pergunte a algumas pessoas que não sejam da área de Letras, nem de Jornalismo, e que também não trabalhem diretamente com textos o que é um gerúndio. Pergunte mesmo a uma pessoa que fala usando muitos gerundismos o que é um gerúndio. Aposto que você vai se surpreender com a desconhecimento que as pessoas têm de sua própria língua.

 

Especula-se que o gerundismo tenha se originado de traduções literais do inglês, nas quais tempos verbais com esse tipo de construção são normais. Isso me parece mais um sintoma de colonização cultural. Está lá, em inglês, e chegou a nós numa tradução obviamente mal feita, porque a tradução literal poucas vezes é a melhor solução, principalmente quando resulta na simples transposição de uma dada estrutura lingüística de um idioma para outro. Não se pode transpor a estrutura; é necessário adaptá-la à língua de chegada, para que nela a expressão fique tão normal quanto é na língua de partida.

 

É claro, e nisso você tem toda a razão, que a língua portuguesa é viva e comporta vários registros, dos quais a norma culta é apenas um. Acontece que o gerundismo pretende ser o registro culto. E não é.

 

Combater o gerundismo não é condenar o fulano, rotulá-lo de ignorante. Não pretendemos humilhar as pessoas. É exatamente o contrário. Queremos dizer ao falante que usa gerundismo - porque repete um discurso que ele considera O CERTO e O BONITO - que seu falar original é quase sempre mais correto do que aquele que ele tenta reproduzir. Queremos mostrar a ele como sua língua é rica, fazê-lo deitar seus olhos sobre ela, fazê-lo admirar uma estrutura simples, como “pois não, senhor, vou encaminhar seu pedido”.

 

“Vamos estar fazendo o possível para podermos estar resolvendo o problema” não é mais correto do que “Nóis vai fazê o possível pra resolvê o pobrema.” Se comparados à norma culta, o primeiro é só mais empolado do que o segundo e usa uma estrutura que não é natural em língua portuguesa. O segundo está igualmente inadequado, é claro, porque, segundo a norma culta, tem grafia e concordância incorretas. Agora, se pensarmos do ponto de vista dos registros da língua, o segundo é simplesmente um outro registro da língua, enquanto o primeiro é falso, porque pretende ser a norma culta e, como já disse, não é. 



 Escrito por Letristas desesperadas às 15h15
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Diga NÃO ao "não vou estar tendo"!!!

De todo o repertório de frases com gerundismo faladas atualmente, a que considero mais estúpida é, com certeza, “não vou estar tendo”.

 

Quem aqui já não passou por situação semelhante: você entra numa loja e pergunta se há determinado produto. Com a maior cara lavada, o(a) vendedor(a) responde: “Não vou estar tendo, senhor(a)”.

 

Peraí. Pensem comigo: “estar tendo” pressupõe uma ação contínua, certo? Assim como quando você diz “estou lendo um livro” (que é perfeitamente correto), você quer dizer que isso faz parte de seu cotidiano em um determinado período de tempo contínuo.

 

Aí você pára e reflete. Se a pessoa da loja “não vai estar tendo” determinado produto, você conclui que, do momento em que fez a pergunta até o fim apocalíptico dos dias, a loja nunca mais terá o produto X, já que “não vou estar tendo” pressupõe “não vou ter o produto X por um período contínuo indefinido”.

 

Bom, pensamento concluído, é possível tomar duas atitudes:

 

1 – Simplesmente agradecer ao(à) vendedor(a), mesmo que você esteja completamente estarrecido(a), afinal, você é uma pessoa fina e educada e não se desgasta a troco de pouca coisa.

 

2 – Aderir à campanha “2004, Ano Oficial de Combate ao Gerundismo” e comunicar ao(à) vendedor(a) que, já que ele(a) “não vai estar tendo”, você NUNCA mais voltará àquela loja, pois o produto X nunca mais estará disponível para compra.

 

Observação: se você escolher a opção 2, certamente terá como resposta a cara de dúvida ou espanto do(a) vendedor(a). Sem problemas. Não se faça de rogado e explique calma e educadamente ao(à) vendedor(a) que aquela frase CONDENA a loja a NUNCA MAIS ter determinado produto. Diga que isso é muito perigoso, pois clientes interessados somente naquele produto poderão nunca mais voltar à loja. Diga que você está, na verdade, querendo que a loja prospere e que, ao contrário do que está sendo feito por seus vendedores, não afugente mais os clientes.

 

Tarefa cumprida, aula dada, vá embora para casa, ou para outra loja, e depois durma com a consciência tranqüila. Você está fazendo sua parte, ajudando a erradicar esse mal que assola nossa língua.

 

Diga NÃO ao “não vou estar tendo”!!!

 Escrito por Letristas desesperadas às 08h53
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Como tudo começou

Bem, gente, antes de tudo é bom contar como isso começou.

 

Certa vez tive um probleminha com a Siciliano.com (não entregaram um livro que comprei) e precisei usar o serviço de atendimento por chat, certa de que nele não seria atendida com o “vamos estar verificando” de praxe. Ledo engano. Pasmem, caros amigos, a atendente conseguiu utilizar, no chat, todos os gerundismos imagináveis. NO CHAT. Vocês entendem o que significa isso? A moça escrevia “senhora, aguarde um momento que vamos estar verificando”. Falando já é irritante, imaginem então lendo, “chateando”, com o perdão do trocadilho.

 

Alguns dias antes, eu havia recebido o texto Em 2004, gerundismo 0!, atribuído, no e-mail, a Ricardo Freire (calma, calma, esse texto já está aí embaixo e outros virão, com certeza). Mas, como dizia, eu havia recebido o texto e, ao lê-lo, senti-me profundamente tocada pela conclamação contida em suas linhas. Sim, sim, o texto tinha razão. Era necessário e urgente salvar a língua portuguesa.

 

Imbuída, então, desse espírito, perguntei à atendente (via chat, não se esqueçam) se havia algum tipo de orientação da empresa para que eles falassem daquela forma, e citei exemplos de gerundismo. Ela respondeu com a seguinte pérola: “A senhora quer dizer estar falando sempre corretamente?”. Tentei argumentar, explicar a ela que o gerundismo é um vício de linguagem e que era simplesmente mais fácil, mais bonito e mais correto falar “um momento, vou verificar” ou até, se ela quisesse, “um momento, estou verificando”. Minha argumentação não só foi vã como, também, motivo de riso.

 

Foi aí que percebi o quanto é grave a situação. Não sei se existe uma “Lei da Economia Lingüística”, mas, se existir, ela vigora, acima de tudo, nos chats. Nesse caso, até isso foi para o brejo. Então, antes que a ira extrema e a cólera profunda façam com que nós, que tanto apreciamos a simplicidade de um “vou verificar”, “vou encaminhar” ou ainda “não tenho no momento” (em substituição ao tão usado “não vou estar tendo”, referindo-se a um produto faltante na loja) tomemos atitudes mais deselegantes, como desligar o telefone, aos berros, na cara da pessoa com quem estamos falando, é mister FAZER ALGUMA COISA.

 

Não estou sozinha nessa empreitada. Há muitos amigos e colegas que comungam do mesmo desejo e outros tantos que nunca haviam percebido que usavam essa chatice lingüística. Por isso, saibam todos: críticas, sugestões, textos, comentários, agrados e porradas virtuais serão bem-vindos nesse blog, porque é importante acabar com o gerundismo, mas tão importante quanto isso é discuti-lo. Usuários ou não do “você pode estar assinando aqui”, participem. Não se trata de purismo, mas de resistência ao avanço de novidades que tornam a língua menos clara, mais difícil e mais complicada do que ela já é. Quem quer impressionar e falar bonito, que conjugue os verbos corretamente, não coma os plurais, não use gírias, enfim, use um registro mais culto. Ok, você, como tantos brasileiros, não está familiarizado com o registro culto? Mas, se está aqui, lendo esse blog, é porque foi à escola e aprendeu algumas coisas. É só uma questão de esforçar-se um pouco mais, nem precisa muito, para falar como se deve.

 

Sim, queremos acabar com o gerundismo, mas não sem discussão. Como somos democráticos, FOGO AO GERUNDISMO. E os ofendidos que se defendam.

 



 Escrito por Letristas desesperadas às 13h41
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Eis nosso texto-manifesto inspirador:

 

EM 2004, GERUNDISMO ZERO!

Ricardo Freire


As reformas passaram. Os juros começaram a cair. A indústria voltou a contratar. As vendas melhoraram um pouquinho. Já dá para comemorar? Não. Existe um grande perigo por trás de tudo isso. O quê? Não, não é a volta da inflação. Refiro-me à bolha do gerundismo.

 

Pense bem: quanto maior é a atividade econômica, mais negócios são fechados. Mais telefonemas são dados. Como conseqüência, mais gente tem a oportunidade de dizer coisas como: “Nós vamos estar analisando os seus dados e vamos estar dando um retorno assim que possível”. Ou: “Pra sua encomenda tá podendo tá sendo entregue, o senhor precisa tá deixando o nome de uma pessoa pra tá recebendo pelo senhor”.

Pára! Pára tudo! Não é para isso que a gente se sacrificou este ano inteiro. Crescimento, sim. Gerundismo, não! Mais do que nunca, precisamos nos mobilizar. Cada um de nós deve ser um agente sanitário eternamente a postos para exterminar essa terrível praga que se propaga pelo ar, pelas ondas de TV e pelas redes telefônicas.

E só existe uma forma de descontaminar um gerundista crônico: corrigindo o coitado. Na chincha. Com educação, claro. Por incrível que pareça, ninguém usa o gerundismo para irritar.

Quando a teleatendente diz “O senhor pode estar aguardando na linha, que eu vou estar transferindo a sua ligação”, ela pensa que está falando bonito. Por sinal, ela não entende por que “eu vou estar transferindo” é errado e “ela está falando bonito” é certo. O que só aumenta a nossa responsabilidade como vigilantes e educadores.

O importante é nunca deixar barato. Se alguém vier com gerundismo para cima de você, respire fundo - e eduque a criatura. “Não, eu não posso TÁ ASSINANDO aqui. Mas, se você quiser, eu posso ASSINAR aqui, com o maior prazer”.

”Não, minha filha. Eu não vou TÁ EXPERIMENTANDO nada em provador nenhum. Eu vou é trocar de loja!” Se você tiver habilidades de professor, pode ir mais fundo: “Desculpa. Não é “a gente pode tá liberando o seu carro no sábado”. Você não deve usar nunca o verbo estar, no infinitivo, combinado com um verbo no gerúndio. O certo é “a gente pode liberar o seu carro no sábado”.

“Entendeu?” O sujeito vai continuar sem entender nada, e depois dessa provavelmente o seu carro nem fique pronto no sábado - mas é um preço que vale a pena pagar por uma sociedade sem gerundismo.

Toda atenção é pouca. Nesse período de tolerância zero com o gerundismo, precisamos evitar até mesmo os casos em que o “vou estar fazendo” esteja certo. Por exemplo: em vez de dizer “Não ligue agora para o seu tio, porque ele deve estar jantando” - o que é perfeitamente correto -, diga: “Não ligue agora para o seu tio, porque é hora do jantar”.

O governo poderia fazer de 2004 o Ano Oficial de Combate ao Gerundismo. Um bom começo seria proibir o gerundismo em todas as declarações do Executivo (presidente: metáfora, tudo bem. Gerundismo, não!).


Gerundismo poderia dar pontos na carteira de motorista. Poderia aumentar a alíquota do imposto de renda do infrator. As universidades públicas poderiam inovar o sistema de cotas. Que tal: 100% das vagas para não-gerundistas?!!

Ainda estamos longe da erradicação do analfabetismo. Mas o fim do gerundismo só depende de nós. Não vamos nos dispersar!

 

(In: Revista Época, edição 293, dez/03)

 



 Escrito por Letristas desesperadas às 13h15
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